31 de agosto de 2015

Crônica sobre escutar


Estava trabalhando um dia desses junto com uma amiga, e estávamos tendo aquelas típicas conversas para matar o tempo. Mas percebi no jeito dela que ela precisava contar alguma coisa. Pude ver nos seus olhos que algo estava retido dentro da sua cabeça, algum sentimento que precisava sair. Com jeitinho, fui tentando tirar dela o que se passava. Cada vez que ela fazia menção ao assunto, eu escutava quietinha, dando corda pra ela continuar. E ela continuava, cada vez mais motivada pela minha atenção. Até que despejou tudo em cima de mim. Mágoas. Términos. Começos assustadores. Dúvidas. Tudo foi saindo, e percebi minha amiga ficando mais leve a medida que a pressão na sua cabeça diminuía. No final, ela estava melhor. Não curada, mas aliviada. 
Escutar. Verbo simples, ação complicada. Na nossa avidez de aproveitar nossos dias o máximo possível, desaprendemos a parar e escutar o que os outros tem a dizer. Mesmo quando nos dispomos a ajudar, quantas vezes não escutamos, mas só ouvimos, sem prestar o mínimo de atenção... Reter emoções faz mal psicologicamente, já diziam muitos estudiosos; mas hoje em dia parece inevitável. É isso ou falar sozinho, e dar corda pros outros te chamarem de biruta (eu podia simplesmente escrever 'louco', mas achei 'biruta' menos pesado; e mais gostoso de falar. Enfim). 
E assim levamos nossos dias: todos com a cabeça cheia e nenhum poço disponível para despejarmos nossas angústias. Depois não sabem porque os psicólogos estão tão ocupados. Sortudos são aqueles que possuem alguém que apenas com uma ação diz: vai, coloca tudo pra fora. 
Eu faço minha parte. Ofereço meus dois ouvidos para quem precisar. Quando não tenho um conselho, sei que esse é o mínimo que posso fazer; o mínimo que ninguém mais faz.

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